quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O Humor também é paulistano.


Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto

O humor, mais que uma forma de descontração descompromissada, pode ser uma poderosa ferramenta de crítica social e política. Não é por acaso que no romance “O Nome da Rosa”, do filósofo e semiólogo Umberto Eco, o trama se desenrole justamente em torno da descoberta de um suposto livro em que Aristóteles teria escrito sobre o riso (humor), que colocaria em ameaça um dogma da Igreja de então, o de que Cristo não ria. De certa forma, uma tentativa da Igreja de condenar o humor como forma de expressão. 
Hoje o humor esta presente em diferentes formas de comunicação, e nos impressos, principalmente jornais, quase sempre em charges, ilustrações e tiras de quadrinhos. Por vezes, também em revistas próprias de humor, que reúnem este material já publicado ou inédito. O Brasil se destaca na produção quadrinistica de humor, e uma das experiências mais ricas de publicação de revistas de humor no Brasil, foi á da Circo Editorial (1984-1995), agora reunida no livro Humor Paulistano (org. Toninho Mendes, SESI-SP Editora, 2014).

Capa do Livro Humor Paulistano (Reprodução).


O livro é lançado pela nova editora do SESI-SP, e devido à existência de SESIs em diversas cidades no Estado de São Paulo, foi realizado múltiplos lançamentos da obra. No dia 31/05/2014, no SESI de Marília, as 19:00, assistimos a uma palestra com o prof. Dr. Waldomiro Vergueiro da USP, que fazia o lançamento oficial da obra na cidade de Marília. A palestra terminou com um bate papo interessante sobre quadrinhos de humor no Brasil, que para o palestrante é um dos gêneros quadrinisticos em que alcançamos “originalidade estética e criativa”. Concordo plenamente com suas palavras, e o livro Humor Paulistano confirma este julgamento.







O autor desta coluna e o Prof. Dr. Waldomiro Vergueira (sentado) por ocasião do lançamento de Humor Paulistano em Marília (Arquivo pessoal do autor).


O livro é composto de ensaios sobre a Circo Editorial, suas principais publicações e artistas, bem como tiras, charges, quadrinhos, fotonovelas e etc., republicadas a partir do material original da editora. Estão presentes nas mais de quatro centenas de páginas os seguintes artistas: Alcy, Angeli, Chico, Glauco, Laerte, Luiz Gê e Paulo Caruso. Já os ensaios são escritos por Ivan Finotti, Waldomiro Vergueira, Nobu Chinen, Paulo Ramos, Marcelo Alencar, Roberto Elísio dos Santos e Toninho Mendes. Como brinde é distribuído na terceira capa da publicação o livreto de poemas “A confissão para o Tietê” de Toninho Mendes. 
Nos anos em o material da Circo Editorial circulou nas bancas brasileiras este autor ainda era muito jovem para apreciar e acompanhar o humor presente ali, que por ser majoritariamente um humor de costumes e por vezes político dependia de uma certa experiência de vida para ser apreciado. Sem falar que muitas das situações e personagens, se já faziam parte da fauna humana da Capital, ainda demoraria um pouco mais para se tornar perceptiva no interior, como são os personagens de Angeli – Bob Cuspe; Rê Bordosa; Wood & Stock, Mara Tara, Meiaoito e Nanico, entre outros – que fizeram da revista Chiclete com Banana um fenômeno de venda, ao lado das revistas Circo; Geraldão; Piratas do Tietê; etc. 
O humor presente nestas revistas pode ainda hoje ser plenamente apreciado, mesmo por quem, como este articulista, não teve a oportunidade de acompanhar as edições originais, e pode ser relembrado, agora em material gráfico de alta qualidade, por antigos leitores. Para além dos quadrinhos e dos ensaios, a própria história da editora e de seu criador, Paulinho Mendes, relatada principalmente no primeiro e no sexto capítulo são uma aula das dificuldades inerentes na produção e comercialização de quadrinhos no Brasil, em uma época de planos econômicos e hiperinflação.




Humor Paulista: a experiência da Circo Editorial 1984-1995, resgata uma importante fase do quadrinho paulista, mas sobre tudo dos quadrinhos brasileiros.

Resenha: Billy The Kid e outras histórias 24 e 25.

Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto

Desde que me entendo como leitor, ou seja, que a leitura se tornou algo mais do que o necessário para a realização de atividades escolares, sou um leitor de faroeste. Comecei com os inesquecíveis Bella & Broco, Epopeia Tri, e é lógico Tex, mas tarde viria uma miríade de outras publicações, como Zagor, História do Oeste, Mágico Vento, Ken Parker e etc. Além claro dos livros, como a maravilhosa experiência de ler Winnetou de Karl May, ou Um Hombre de Elmore Leonard, entre tantos outros. 
Assim foi com grata satisfação que me chegou as mãos os números 24 e 25 da revista Billy The Kid e outras histórias, que se propõe justamente a missão de dar continuidade a publicação de quadrinhos de faroeste, neste caso escrito por brasileiros. Afinal temos uma longa tradição de escrita de textos de faroeste, parte considerável dos livros de faroeste de bolso, publicados por editoras como a Monterrey era na verdade pseudo traduções, ou seja, livros escrito por brasileiros, que utilizavam pseudônimos norte-americanos. Também tivemos muitas histórias em quadrinhos de faroeste escritas por brasileiros, como por exemplo, Chet. Artistas de peso como Rodolfo Zalla, Eugênio Colonnese, e Mozart Couto, contribuíram com o gênero, entre tantos outros. A revista Billy The Kid continua cavalgando nesta gloriosa planície, com muito terreno ainda a ser explorado pelos quadrinistas brasileiros. 
O número 24 da revista Billy The Kid e outras histórias faz uma merecida homenagem ao orgulho povo Apache, estes destemidos nativos americanos que impuseram uma resistência ferrenha contra a ocupação de suas terras e consequentemente seu próprio extermínio, não lograram vencer forças infinitamente superiores no campo de batalha, mas moralmente certamente foram os grande vitoriosos. “Apaches” do quadrinista e editor Arthur Filho coloca apaches contra os famosos caçadores de escalpos, com uma pequena intervenção de Billy The Kid; a segunda HQ da revista é uma quadrinização de uma lenda de índios canadenses “O Sacrifício”. Este número 24 conta também com um pôster de Tex em preto e branco com desenho de Roberto Diso, entrevista com o fã e blogueiro José Carlos Pereira Francisco e algumas matérias sobre povos indígenas. 

Já a edição 25 de Billy The Kid e outras histórias, trás a história “Os 4 Procurados”, de Bill Tex, com um enredo de perseguição e traição; “No Rastro da Vingança” de Arthur Filho, uma história que tem Billy The Kid como personagem principal, com direito a um clássico duelo de rua. Por fim a edição se encerra com a HQ “DJango”, com texto de Jota Laerte e arte do mestre Rodolfo Zalla, história que remente a um dos temas mais comuns do faroeste, mas que ainda rendendo boas histórias, um homem em busca de vingança contra um notório bandido que tem a seu serviço um exercito de criminosos. Como brinde temos nesta edição um belíssimo pôster colorido de Tex com arte de Alfonso Font. 
Vale a pena conhecer a revista Billy The Kid e outras histórias, e curtir uma boa história de faroeste. Recomendo!